Recentemente, a Resguarda realizou o primeiro webinar do ciclo 2026, dedicado à análise das estatísticas do canal de denúncias em 2025.
Ao longo do encontro, foram apresentados indicadores consolidados a partir da operação de canais de denúncias no Brasil e em toda a América Latina, oferecendo um panorama consistente de como as organizações estão lidando, na prática, com a gestão de irregularidades, riscos éticos e investigações internas.
A gravação completa do webinar já está disponível e pode ser acessada aqui, permitindo aprofundar a análise dos dados e tendências apresentados.
Mais do que dados operacionais, os resultados permitem avaliar o nível de maturidade dos programas de compliance e evidenciam lacunas recorrentes — especialmente na etapa crítica entre o recebimento das denúncias e a qualidade da sua apuração.
Principais insights dos dados de 2025
- O Brasil lidera o ranking da América Latina com 7 denúncias a cada 100 colaboradores, acima da média regional de 4,3
- Assédio é o tipo de denúncia mais frequente, seguido de mau desempenho, conflito de interesses e fraude
- 84% das denúncias partem de colaboradores internos
- 71% dos reportes são anônimos, reforçando o anonimato como principal fator de confiança
- Canais digitais concentram 67% das denúncias, indicando migração para plataformas web e chat
- Indústria e manufatura lideram por setor, seguidas por comércio e saúde
Esses indicadores, quando analisados em conjunto, apontam para uma mudança relevante: o canal de denúncias está cada vez mais consolidado como instrumento central de governança — mas sua efetividade ainda depende, em grande medida, da qualidade da gestão e das investigações internas.
Mais denúncias significam mais risco — ou mais capacidade de detecção?
O Brasil lidera o volume de denúncias na região, com 7 reportes a cada 100 colaboradores.
Longe de indicar maior exposição, esse dado tende a refletir maior confiança no canal e maior capacidade de detecção de irregularidades. Organizações com canais ativos e utilizados conseguem capturar sinais de risco com mais antecedência — o que reduz a probabilidade de crises.
Nesse sentido, o volume de denúncias é menos um indicador de problema e mais um indicador de funcionamento do sistema.
Assédio em alta: entre pressão regulatória e desafio cultural
O assédio permanece como o principal tipo de denúncia, seguido por mau desempenho, conflito de interesses e fraude.
No Brasil, esse comportamento está diretamente associado à Lei 14.457, que ampliou as obrigações relacionadas à prevenção e ao tratamento de casos de assédio.
No entanto, a recorrência do tema indica que o desafio não é apenas regulatório. Trata-se de um tema estrutural de cultura organizacional, que exige não apenas políticas formais, mas mecanismos efetivos de reporte, apuração e resposta.
Origem das denúncias: o canal como ferramenta interna — e ponto de entrada para terceiros
A maior parte das denúncias (84%) é realizada por colaboradores internos, o que reforça a consolidação do canal como ferramenta de uso cotidiano dentro das organizações.
Por outro lado, dados de implementação mostram um comportamento distinto: em novos canais, até 85% das denúncias iniciais costumam vir de fornecedores, frequentemente associadas a fraudes ou corrupção.
Esse padrão evidencia o papel do canal como via de entrada para riscos externos que não encontram espaço nos fluxos internos tradicionais — e reforça a necessidade de processos de investigação preparados para lidar com diferentes tipos de fonte e evidência.
Anonimato: condição de uso, não diferencial
Com 71% das denúncias realizadas de forma anônima, o dado se mantém estável e reforça um ponto crítico: o anonimato é uma condição para o funcionamento do canal.
Sem garantias concretas de proteção, há uma tendência direta à subnotificação. E menos denúncias não significam menos problemas — significam menor visibilidade sobre riscos existentes.
O principal gap: a qualidade das investigações
Os dados apresentados no webinar evidenciam o principal desafio das organizações na gestão de denúncias: a qualidade das investigações internas.
Entre os casos analisados:
- 21% foram encerrados de forma informal ou por baixa relevância
- 18% apresentaram falhas no processo investigativo
- 61% foram classificados como não comprovados após investigação estruturada
O ponto mais crítico não está no volume de casos não comprovados, mas no fato de que quase 40% dos encerramentos apresentam fragilidades no processo.
Erros metodológicos, vieses internos, ausência de documentação adequada, falhas na condução de entrevistas e falta de padronização comprometem a consistência das apurações — e, consequentemente, a credibilidade do canal de denúncias como instrumento de governança.
Investigações independentes: onde o canal realmente se valida
A efetividade de um canal de denúncias não se mede pela quantidade de relatos recebidos, mas pela capacidade da organização de transformá-los em apurações consistentes e decisões bem fundamentadas.
Nesse contexto, a condução de investigações com independência e método torna-se um fator crítico. Estruturas especializadas permitem:
- consolidar evidências de forma técnica e defensável
- garantir independência e reduzir conflitos de interesse
- assegurar rastreabilidade e auditabilidade ao longo de todo o processo
- proteger adequadamente denunciantes e envolvidos
- gerar inteligência para prevenção de recorrências
Na prática, é nessa etapa que o canal de denúncias se valida como ferramenta efetiva de compliance.
A experiência na condução de investigações em diferentes contextos organizacionais mostra que tratar essa etapa como um processo estruturado — e não apenas operacional — é o que diferencia organizações que reagem a crises daquelas que conseguem antecipar riscos.
O papel da tecnologia: ANA e a evolução dos canais de denúncia
Os dados do webinar confirmam uma mudança estrutural: os canais digitais já concentram a maior parte dos reportes, tornando a experiência de registro um fator crítico para a qualidade da informação.
Nesse contexto, a ANA, assistente de inteligência artificial aplicada ao canal de denúncias da Resguarda, foi desenvolvida para qualificar a etapa inicial do reporte.
Por meio de uma interface conversacional, a ANA orienta o denunciante ao longo do relato, contribuindo para informações mais claras, completas e consistentes desde o primeiro contato.
Do ponto de vista de governança, isso se traduz em:
- melhor qualidade dos insumos para triagem e análise
- redução de retrabalho por informações incompletas
- maior consistência nas investigações internas
- decisões mais bem fundamentadas
Mais do que um avanço tecnológico, trata-se de uma evolução na forma como os canais de denúncia operam: não apenas como meios de recepção, mas como mecanismos que qualificam a informação desde a origem — impactando diretamente a efetividade do compliance.
Prioridades para 2026: da implementação à efetividade
Os dados de 2025 apontam três frentes prioritárias para evolução dos programas de compliance:
- Fortalecer a confiança no canal, por meio de comunicação e capacitações contínuas
- Estruturar a gestão de denúncias, com processos claros, documentados e auditáveis
- Aprimorar a condução de investigações internas, incorporando metodologia e, cada vez mais, tecnologia de suporte
Esses pilares são o que diferenciam canais que existem de canais que efetivamente funcionam como instrumentos de governança.
Conclusão: dados, investigação e tecnologia como base da governança
Os dados de canais de denúncias não devem ser analisados apenas como indicadores operacionais, mas como insumos estratégicos para governança e gestão de riscos.
Mais do que medir volume, eles revelam:
- nível de confiança organizacional
- capacidade de detecção de irregularidades
- maturidade em compliance
- qualidade das investigações internas
A diferença entre exposição e prevenção está na capacidade de transformar denúncias em investigações consistentes e decisões estruturadas — cada vez mais apoiadas por tecnologia e inteligência de dados.
É nesse ponto que programas de compliance evoluem de estruturas formais para sistemas efetivos de gestão de risco.
Acesse o conteúdo completo
O webinar com a análise detalhada dos dados de 2025 está disponível. A gravação aprofunda os indicadores e apresenta leituras adicionais sobre tendências em canais de denúncias, investigações internas e o uso de tecnologia na governança na América Latina.








